segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Correndo Atrás da Lebre


Quantos torrões de açúcar? Um... Dois... Gotas de limão? Uma... Duas... Um pingo de leite? Ping... Pronto. Beba. Beba. Está delicioso, do jeito que ela gostava... Sim, ela adorava este chá. Claro, sempre que vinha aqui, tinha que provar. Era esta a desculpa.

A garota de cabelos cacheados correu atrás de uma lebre. A lebre, que não é boba nem nada, não ia se deixar capturar por aquela garota de cabelos cacheados que correu atrás dela. Chegou ao lado de uma árvore, viu um buraco e se jogou numa tentativa desesperada de fugir daquela garota de cabelos cacheados que correu atrás dela por todo o parque. A garota de cabelos cacheados que correu atrás da lebre que não era boba nem nada não pensou duas vezes e também entrou no buraco na tentativa de poder capturar a lebre.

Lá veio ela. A garota de cabelos cacheados correndo atrás da lebre. Lá veio ela, em minha direção. Quando me viu, congelou. Eu não sabia quem era aquele ser iluminado que estava diante dos meus olhos, mas era a garota mais linda do mundo, ela e seus cabelos cacheados, correndo atrás de uma lebre.

Quando chegou mais perto, pude notar. A garota de cabelos cacheados que corria atrás de uma lebre tinha lindos olhos azuis. Azuis como o céu. Azuis como o mar. Azul do jeito que me confundia, não sabia se estava olhando em seu rosto ou me perdendo nas ondas do oceano. Ou me perdendo olhando para cima, para o firmamento, refletindo sobre a vida.

Bolachas. Chá com bolachas. Bolo. Chá com bolo. Minha mão tremeu enquanto a servia, fique bastante nervoso. Não era todo dia que tinha visitas. Não era todo dia que tinha uma garota tão linda assim, de cabelos cacheados, com olhos azuis como o céu, azuis como o mar. Quantos torrões de açúcar? Um... Dois... Gotas de limão? Uma... Duas... Um pingo de leite? Ping... Pronto. Beba. Beba. Gostou? Sabia que sim. Sabia que iria gostar. Não, não se acanhe, fique à vontade, pode repetir.

Ela era boa de mesa. Eu fiquei preocupado, achei que não iria gostar das coisas que ali estavam, mas me enganei completamente. Ela provou tudo e aprovou. Sua cara de felicidade não escondia. A garota de cabelos cacheados que correu atrás de uma lebre veio me encontrar. Isso ficou claro na continuação da história.

Saímos para dar uma volta. Mostrei o lugar para ela. Ela adorou. Queria saber o nome de tudo. Queria saber o porquê de tudo. Eu expliquei tudo, tintim por tintim. Mostrei tudo a ela. Ela viu tudo.

Chegamos a um dos meus lugares favoritos: o mar. Ela adorou. Disse que, de onde ela vinha, não existia mar. Eu não sabia se estava vendo os seus olhos refletidos no mar, ou o mar refletido nos seus olhos. Eu não sabia se estava lá, na real, ou flutuando, em êxtase.

E foi assim que tudo começou. Com uma visita. Com uma busca atrás de uma lebre. A garota de cabelos cacheados que correu atrás de uma lebre por todo o parque veio até mim. Não resistimos e nos apaixonamos ali mesmo. E foi assim por dias e dias. Foram os dias mais felizes da minha vida. Todos os dias ela voltava. O problema é que felicidade passou. Ela não voltou mais.

Esperei. Esperei. Esperei tanto que a mesa do chá já criava mofo. Quanto tempo fazia? Acho que dois anos. Sim, dois anos. Esperei por dois anos. Ela não voltou.

Lá vem a lebre. Ela está sempre apressada. Não entendo o porquê da sua... Quem é aquela pequenina garota de cabelos cacheados que vem ali? Ela mal sabe andar. A cada dois passos, uma pausa para retomar o equilíbrio. Quando não, cai, mas logo levanta e continua atrás da lebre. Chegou ao meu lado. Esses olhos... Sim. Os mesmos olhos da garota de cabelos cacheados e olhos azuis que me encantaram antes. Olhei para frente. Sim. Lá estava ela. A garota de cabelos cacheados e olhos azuis encantadores estava lá, parada na minha frente, agora com uma pequenina garota de cabelos cacheados e olhos azuis do lado.

A pequenina parou do meu lado, olhou para cima e disse “Papai”. Na mesma hora meu coração bateu mais forte, tão forte que podia ser ouvido por toda a região. Aquela pequena garota de cabelos azuis e olhos cach... digo, cabelos cacheados e olhos azuis me chamou de papai. Eu sou...

Olhei para frente. A moça de olhos azuis e cabelos cacheados olhou para mim e balançou a cabeça, afirmando que, sim, era minha filha.

As duas estão aqui comigo até hoje. Somos uma família. Todos os dias, nesta mesma hora, o chá é servido. Quantos torrões de açúcar? Um... Dois... Gotas de limão? Uma... Duas... Um pingo de leite? Ping... Pronto. Beba. Beba.

E tudo começou correndo atrás da lebre...

Um comentário:

  1. Gostei muito mesmo.Fiquei encantada e li duas vezes. :)
    Parabéns!

    ResponderExcluir