sábado, 19 de novembro de 2011

Segura a minha mão


Andando meio sem rumo estava ela. O olhar perdido, sem saber para onde ir denunciava. Ela não sabia o que fazer, não sabia como agir. Estava a horas andando assim, passando por ruas escuras, vielas estreitas. Nem se importava com o perigo, diziam que ali era um pouco perigoso a essa hora da noite, mas ela não ligava. Continuava a andar, perdida, sem rumo.

Ao longe, viu uma casinha simples, mas que pareceu bastante acolhedora. Algo chamou a sua atenção. Viu a figura de um homem andando de um lado para outro, na varanda. Não conseguiu dizer quem era, estava longe e sem óculos. Caminhou em direção à casa.

Chegando mais perto, percebeu que era uma pessoa conhecida. Sim, era ele mesmo, a pessoa que a fazia balançar, que fazia com que perdesse o rumo. Ela sentia algo especial por aquela pessoa, mas não era momento nem local para falar isso. Escondeu-se. Ficou só observando aquele rapaz na varanda, ora olhando para o horizonte à procura de algo, ora entrando e saindo de casa, como se esperasse algo.

Com os olhos apertados para compensar a falta de correção, ficou observando as atitudes daquele cara. Queria entender por que agia assim. Queria saber o porquê daquela agitação toda. Difícil enxergar assim. Não entrava na cabeça dela tamanha agitação. Voltou escondida de onde veio e sumiu na noite.

Passou dia após dia a somente observar as atitudes estranhas (a seu ver) do jovem. Foram quatro no total. Sempre a mesma atitude daquele cara. Não entrava na cabeça dela ele fazer aquelas coisas.

No final do quarto dia, ela tomou coragem e apareceu. Foi andando calmamente e pacientemente em direção à varanda daquela casa. O jovem rapaz parou imediatamente, apesar de estar de costas, e virou-se em direção dela. Os olhos estavam marejados, ficou observando a figura daquela linda mulher caminhar em direção à ele. Param um em frente ao outro. Nada dizem. Apenas se olham. Os olhares dizem tudo, era como se fossem diálogos velados, sem palavras. O rapaz toma coragem e avança. Subitamente é parado por uma barreira, como se tivesse uma espécie de vidro entre os dois. A moça também tenta, mas aquela barreia impede o encontro dos dois. Os dois então socam a barreira. Nada. Nem um arranhão.

Aquele semblante que acompanhava os dois vai embora. Apenas fica um misto de tristeza e desespero. Então o rapaz para. Por uns instantes ele fecha os olhos e se concentra. Move a mão em direção à barreira. A barreira, antes invisível aos olhos dos dois, se abre um pouco, deixando a mão dele passar.

“Vem. Segura a minha mão.”- fala o rapaz. A moça reluta. Não sabe o que a espera, tem medo, receio. Está insegura.

“O que temes?”, pergunta ele. “Saiba que o desconhecido pode parecer amedrontador, mas que não está sozinha. Não mais. Vem. Segura a minha mão. Deixa eu ser o suporte que você precisa, tenta.”- insiste ele.









Segura a minha mão...

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Fadas e Desejos


Há muito tempo, quando homens vestiam pesadas armaduras de metal para batalhar, quando dragões ainda podiam ser vistos pelos céus, quando a magia era ensinada nas escolas locais de cada reino, fadas habitavam a Floresta de Niquebelt. Esses pequenos seres eram guardados pelo povo da floresta, como os elfos que lá viviam eram conhecidos pelos humanos que perto habitavam. Ninguém de fora podia ao menos entrar ali. Esse rígido controle era necessário, já que muitas magias necessitavam (por incrível que pareça) de ingredientes como asas de fada, bem como do seu pó mágico capaz de ampliar o poder de um simples raio ou brasa, transformando em tempestade e bolas de fogo gigantes.

A cidade mais próxima desta floresta era conhecida como Morada do Vento. O som da mais simples brisa ressoando pelas montanhas parecia como uma sinfonia tocada por anjos e seus instrumentos celestes, o vento ali falava. Lá morava o jovem Robert. Era bastante conhecido por ser um exímio caçador. Até os elfos o respeitavam, sabiam que apenas caçava por necessidade e não por diversão (motivo pelo qual muitas pessoas acidentalmente morrem nas florestas). No arco e flecha era comparável ao mais bem treinado patrulheiro de todo o reino. Na espada era temido pela sua determinação e paixão com que treinava e, raríssimas vezes, atacava algum agressor. Nem tudo era perfeito. Existiam alguns seres que atacavam a cidade em busca da passagem para a floresta. Claro que eram combatidos com fervor. Todos sabiam das antigas alianças entre humanos e elfos, isso é dos tempos dos avôs de meus avôs.

Robert não nasceu numa família rica, não tinham, a princípio, muito acesso a armas e equipamentos bons. Tudo o que ele conseguiu foi com muito esforço e dedicação. Sir Lício de Burbom o tomou como discípulo e o treinou nas artes da guerra e estratégia. O seu fiel amigo, o elfo Bethovirian, com o arco e flecha. Tudo foi bancado por eles, viam que o jovem tinha muito futuro. E estavam certos. A cada dia mostrava isso.

Tudo levava a crer que seria a mesma rotina, parecia mais um dia como outro qualquer. Estavam enganados. Robert foi para o seu quarto. Morava com os pais, era filho único. Ao deitar em sua cama, percebeu uma sombra na parede. Ágil, pegou ao lado uma caneca que antes continha hidromel e rapidamente se pôs de pé. Olhou em direção à sombra, mas não viu mais nada. Com toda a destreza que só um campeão possuía, rolou pelo chão e usou a caneca para prender algo que voava baixo, poucos palmos do chão. Não conseguia ver o que era naquela penumbra. Caminhou para perto de uma vela e afastou um pouco a sua mão esquerda. Para sua imensa surpresa, era um pequeno ser que parecia muito com o seu instrutor de arco e flecha (a não ser o fato de ter asas, e ser muito menor que ele). Espantado, deixou a caneca cair e o pequeno ser saiu voando em direção ao seu rosto. O mais diferente é que aquilo fala. E tem voz feminina. Uma vozinha fininha, mas muito bonita.

Demorou ainda algum tempo para perceber que se tratava de uma fada. Afinal, não era todo dia que se encontrava uma fada em seu quarto, em sua cidade. Elas nunca haviam sido vistas por ali, muito menos em um quarto de alguém.

- Não gostei do que fez comigo, seu grosso! – disse a pequenina.
- Me desculpe. Não sabia que era uma fada. Por favor, me perdoe. – suplica o rapaz.

A pequena fadinha voa em volta de Robert e, fazendo uma cara de desaprovação, fala:

- Então é você... Não esperava que fosse um humano, pensei que fosse um elfo, um centauro, um sátiro ou alguém do tipo. Nunca imaginei que fosse alguém como você...
- Alguém como eu? – pergunta Robert.
- Sim, era você quem eu procurava. Tudo depende de você. Vamos. Venha comigo. Quanto mais o tempo passar, mais difícil ficará para controlarmos a situação e conseguirmos vencer. – responde a pequeninha, abrindo um pequeno saquinho que levava consigo e despejando o seu conteúdo na cabeça do, agora, assustado rapaz.

De repente, Robert começa a flutuar. Era um tanto quanto assustador, nunca tinha feito isso.

- Relaxe. Pense em coisas boas. Venha comigo. – diz a fadinha, abrindo a janela do quarto facilmente, num passe de mágica.

O desengonçado Robert pede para descer, diz que quer voltar, mas flutua em direção à janela. O vento batendo faz...

- Yure? Yure? Acorda, Yure. Tá na hora do seu remédio.
- Eu tava sonhando, mãe. Eu era um guerreiro que encontrou uma fada e...
- Certo, certo. Eu sei que é difícil essa etapa. Você sabe o quanto seu pai e eu estamos lutando para conseguir mais tempo, não sabe?
- Sim, não precisa me dizer nada. Eu ouvi o médico dizendo que não tenho mais muito tempo para conseguir o transplante. Eu ainda não estava dormindo... Mãe? Abre a janela pra mim?
- Não posso, meu filho. Você sabe que não pode pegar nenhuma infecção, nada.
- Mãe, eu estou esperando alguém. Ela virá hoje, eu sei. Ela tem um pozinho que carrega consigo que faz com que a magia aconteça.
- Yure...
- Mãe, você tem que acreditar para a magia acontecer. Você acredita?

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Jogo


Suando frio eu estava. Tenso, nervoso, agoniado, angustiado. Todos os adjetivos do tipo que se enquadram estavam presentes comigo neste momento. Mãos suando. As cartas pareciam escorregar pelos meus dedos. As escondi com a face virada para baixo na mesa. Bobeira. Não posso marcar bobeira e me denunciar. O pessoal aqui é experiente, não iam deixar um novato como eu ganhar essa bolada.

Concentração. Muita concentração. Foco. Foco. Vamos. Vamos voltar à mesa. Analisar a situação. Tenho um par de ases. Acabou de virar mais um ás, já faz uma trinca. Isso é bom demais, está tudo caminhando para um belo desfecho. Não posso me denunciar. Estou aqui na terceira posição, pelo menos, do campeonato. Só enfrentei gente profissional, mas estou aqui, na final. Eu posso. Eu consigo.

Por uns instantes, fui para o meu refúgio, minha mente. Lembrei o que meu pai falava sobre jogo. Ele sempre foi um jogador compulsivo, isso que estragou nossas vidas. Eu sei disso. Não estou jogando por prazer ou lazer. Estou aqui porque estou precisando muito mesmo de dinheiro. Essa oportunidade não vai aparecer tão cedo. Foi ontem que recebi a notícia, pelo rádio...

“Estamos aqui para o sorteio mais aguardado dos últimos tempos: uma oportunidade de disputar o Torneio de Pôquer da Associação Regional e tentar ganhar o grande prêmio – um milhão de reais!” – anunciou o locutor. Muitos tentaram se inscrever, mas poucos conseguiram. Estou com tanta dívida que tentar ganhar este prêmio seria a minha salvação. Eu e minha esposa lutamos muito, mas acabamos perdendo a nossa casa, carro e economias para sanar as dívidas do meu pai. Ela não ficou nem um pouco feliz por eu ser o sorteado, nem sabia que eu tinha me inscrito para participar. Ficou com cara feia até quando eu cheguei à grande final. Agora está me apoiando. Vai entender as mulheres...

“Senhor Hélio, por favor, é a sua vez” – falou a moça da mesa. Perdi-me novamente nos meus pensamentos e não prestei atenção à mesa. Vejo que existe uma possibilidade de flush, o que não seria muito saudável para as minhas intenções.

Estão aumentando a aposta. Eu vou nessa, vou aumentando também. O cara do meu lado é um conhecido jogador internacional. Ao lado dele, um jogador local muito famoso também. Eu sou o único qualquer. O ar de superioridade dos dois me enoja. Vamos ver se vão rir ou chorar, no final. Nervoso, puxo uma rosquinha aqui do meu lado. Preciso de açúcar.

As gotas de suor desciam pela minha face e dificultavam minha visão. Estava calor, mesmo com aquele ar-condicionado, ou estaria eu passando mal? Não poderia ter um ataque, ou algo do tipo. Tenho que continuar.

Aumento a aposta e me concentro em não demonstrar emoção. Tento fugir para minha mente, novamente. Todos me acompanham. Novamente subo a aposta. Merda. O campeão local deu all in. Tô perdido. Para acompanhar, terei que apostar alto também. Nervoso, eu cubro. Só me restam poucas fichas. Que a sorte esteja comigo.

Não acredito no que vejo, o outro competidor cobre a aposta, ficando com poucas fichas. As cartas vão virando. Perdi. O campeão local também. O competidor internacional levou tudo. Agora só tenho isso, não tenho muito que fazer. O prêmio de segundo lugar é bom, cem mil reais, mas não paga nem minha casa. Nessa hora, lembro-me do rosto da minha esposa quando tivermos que vender nossas coisas. As lágrimas teimam em descer pelo meu rosto, mas, me contenho. Não posso demonstrar emoção. Não aqui.

E lá vamos nós, mais uma mão. O máximo que consigo agora é um flush. Minhas chances são baixíssimas. Nossa. E não é que eu consegui? Consegui. Ganhei essa mão. Minha sorte ainda não acabou.

Novas cartas. Vamos lá. Ganhei. Nossa, estou com tudo. Estou ganhando, estou tirando todas as fichas dessa cara. Começo a achar que tenho chances, realmente, de verdade. Um sorriso aqui e ali escapa, não tenho como me conter.

Ganhei. Ganhei o campeonato. Um desconhecido, endividado, um qualquer. Ganhei. Eu derrotei o experiente competidor internacional. Estou me achando a pessoa mais sortuda do mundo. Com caras de poucos amigos (não é para menos), ele me cumprimenta e diz baixinho, no meu ouvido: “Não acabou”. Não entendo o que ele quis dizer, quero comemorar com a minha esposa. Quero pagar minhas dívidas. Quero solucionar meus problemas.

Bom, isso é o que me lembro daquele dia. Estou agora em cima de um banquinho, com as mãos atadas e uma corda em volta do meu pescoço, presa em um galho de jacarandá. Parece que todas as minhas costelas foram quebradas, dói muito quando respiro. É de sabedoria popular que a vida passa diante dos seus olhos no seu leito de morte. O dia da grande mudança, onde tive a chance de mudar a minha vida foi o que passou diante de mim. Por um instante eu fui rico. Por um instante mais eu fiquei vivo.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Voei


Hoje foi a segunda vez que eu voei. As nuvens passando pelo meu rosto dão uma sensação engraçada. Não senti frio. Não senti medo. Só aproveitei o momento. As coisas lá embaixo, pequeninas, pareciam brinquedos. Apenas senti. Apenas voei.

Vi minha casa do alto. Vi meu avô saindo para pescar no lago. Vi minha avó reclamando com ele por algum motivo qualquer. Vi meus pais chegando de carro após voltarem do supermercado. Vi meu cachorro correndo. Era o único que parecia me ver. Ele olhava para cima, latia e corria.

Escondi-me atrás de uma árvore. Fiquei observando. Lá vem ele balançando sua calda, todo desengonçado, com aquela língua pra fora. Seu nome é bem sugestivo, Scooby, homenagem ao meu desenho animado preferido. Pulou e me derrubou, lambeu meu rosto todo. Mamãe o chamou, ele voltou correndo. Nem me viu aqui deitado. Nem pra me ajudar a levantar. Papai prendeu Scooby no cercado. Disse que não queria ele correndo por aí. Ora, ele veio falar comigo. Voltei a voar, afinal hoje era a segunda vez que eu voava.

Voei até minha escola. Estava querendo ver o que estavam fazendo ali dentro que não saiam para aproveitar o dia de sol. Eu estava aproveitando muito bem. Vi que meu lugar estava vazio. Bom, eu estava aqui fora, espiando pela janela. Minha professora está explicando alguma coisa. Vi meus colegas olhando, concentrados, menos uma. Nós tínhamos um namorico. Ela estava olhando para o meu lugar vazio. Notei que uma lágrima teimou sair do seu rosto. Começou a chorar, logo sendo consolada pela professora. Não entendi nada. Melhor sair. Está ficando tarde, acho melhor eu voltar pra casa.

Chego a minha casa, a porta está trancada. Bato, mas parece que ninguém está ouvindo. Dou a volta, fui pelos fundos. A porta estava encostada. Entrei. Vejo mamãe e papai deitados no sofá, abraçados. Parecem dormir. Não vou interromper o momento. Estão abraçados com a minha foto. Estranho... Enfim, vovó está descendo as escadas com uma caixa em mãos. Meus brinquedos. Ué, por que ela guardou meus brinquedos? Passou e nem me viu aqui parado. Seguiu para a cozinha e nem me disse nada. Nessa hora, vovô chegou da pescaria. Mamãe e papai acordaram e foram falar com ele. Nem falaram comigo também. Cegos. Todos se abraçam na cozinha, parecem chorar. Olho para a foto que estavam segurando, sou eu em uma cama de hospital. Na hora lembrei-me deste momento, foi quando eu voei pela primeira vez.

Eu estava cansado de ficar ali e voei, sai do hospital. Não lembro o que estava fazendo ali, só lembro-me da sensação boa que era voar. Voltei rapidinho com aquele gostinho de quero mais.

Lembrei-me da professora dizendo na escola que nem todas as aves voam. Ora, tem pena e não voa? A galinha. A galinha tem pena e não voa. Bom, esta seria uma boa explicação para outro fato: nem todas as pessoas voam. Apenas algumas. Eu voo. Hoje foi a segunda vez que voei. Lembro-me de estar num lugar cheio de gente triste, chorando. Não queria mais ficar ali. Voei. Subi o mais alto que pude. As nuvens passando no meu rosto dão uma sensação engraçada, gostosa. Fiquei ali o quanto pude. Não sei quanto tempo foi, não sei quanto tempo se passou. Só sei que voei...

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Tentando Mudar


Segunda-feira, 03 de Maio de 2010.
Estou aqui, no meu apartamento, escrevendo no meu diário. Tentei juro que tentei. Não consegui. Foram momentos difíceis, o meu filho chorando, com fome, eu precisava de dinheiro para poder comprar comida. Que mãe não faria o mesmo? Que mãe, ao ver o seu filho chorar, com fome, não procuraria todas as maneiras possíveis de ajudar? Tentei, juro que tentei.

Terça-feira, 04 de Maio de 2010.
Não estou nem um pouco animada para escrever, mas sinto aqui um lugar para desabafar. Eu preciso desabafar com alguém. Há muito tempo não sei o que é ter o ombro de um amigo para poder fazer essas coisas. Aqui, no meu diário, eu posso.

Hoje eu fiz novamente. Tenho que conseguir a grana, meu filho não pode passar necessidade. Eu tenho que fazer. Eu tenho que trazer comida para casa. Eu... Não me orgulho disso...

Quinta-feira, 06 de Maio de 2010.
Estava andando pelo centro, 19h, desde 10h da manhã batendo perna procurando um emprego, quando ele apareceu. Parecia bom demais para ser verdade. Claro que relutei, não ia fazer aquilo novamente. Por que as coisas tem que ser assim? Meu filho estava na casa da minha mãe. Odeio ter que deixa-lo lá, mas precisava sair e procurar um emprego. Não queria ter que fazer novamente... Mas o fiz... Vergonha...

Sexta-feira, 07 de Maio de 2010.
Orgulho? Vaidade? Não sei mais o que é isso. Isso não me pertence mais. Perdi quando fiquei desempregada, quando vi o meu filho chorar e não ter o que dar de comida. Eu tenho que fazer. Eu preciso fazer.

Hoje, novamente, ele apareceu. Agora um pouco diferente. Parecia mais... Hmmm... Digamos amistoso. Parecia se importar. Parecia. Tudo foi por água abaixo quando aqueles outros chegaram. Nunca havia feito nada parecido, nem nos meus mais perversos sonhos (ou pesadelos). Eu me sinto muito suja. Eu preciso mudar, eu tenho que mudar.

Segunda-feira, 10 de Maio de 2010.
Neste fim de semana fiz uma viagem. Gostaria muito de ter ido passear, ver lugares diferentes, poder aproveitar. Meu filho, novamente, jogado na casa da minha mãe. Eu, novamente, jogada em meio àquelas pessoas nojentas e imundas. Pensei tanto em acabar com tudo, acabar com esse sofrimento... Eu ainda penso, pra falar a verdade. E como penso. Trazer comida para casa, ver o meu filho alimentado compensa... Tem que compensar.

Terça-feira, 11 de Maio de 2010.
Após dias e dias procurando, finalmente, encontrei. Sim, estou empregada. Estou tão feliz. Posso largar tudo aquilo, deixar o que passou para trás. Estou muito feliz mesmo. Tá, não é o emprego dos sonhos, nem ganho tanto dinheiro assim, mas estou trabalhando dignamente, estou trabalhando pesado para conseguir tudo.

Quarta-feira, 12 de Maio de 2010.
Poxa, pensei que iria tudo passar, as coisas iriam mudar. Ele apareceu no meu emprego. Não acredito. Ele me seguiu até lá. E o pior, fez o que queria: fui demitida. Eu não consegui nem explicar que aquele cara não era ninguém. Meu chefe não me deu ouvidos. Aquela cena, em meio aos clientes e outros empregados, foi demais. Eu o odeio.

Quinta-feira, 27 de Maio de 2010.
Estou escrevendo de outra cidade. Fugi às pressas com o meu filho. Juntei tudo o que tinha e o que não tinha, peguei uma grana com a minha mãe e vim para esta cidade no litoral, em outro estado. Agora são 600 km me separando daquela vida. Espero que, aqui, finalmente, possa dar um rumo à minha vida.

Sexta-feira, 28 de Maio de 2010.
As coisas vão bem, estou empregada, tenho um lugar pra morar e tudo. Tudo isso em apenas 2 dias, ontem e hoje. Nossa, parece que, aqui, aqui sim, é o meu lugar. Muito feliz.

Dormi na rodoviária, encontrei uma senhora que precisava de ajuda em casa. Não tenho medo, eu e meu filho estamos aqui mudando de vida. Esta senhora é muito boa mesmo, nem se importou de ter uma criança comigo, me chamou para trabalhar em sua casa e pagando até que bem.

Sábado, 29 de Maio de 2010.
Trabalho muito, mas não reclamo. Eu e meu filho estamos muito bem. Consigo botar a cabeça no travesseiro e relaxar. Nossa, tanto tempo que não fazia isso.

Domingo, 30 de Maio de 2010.
Pensei que essa senhora fosse sozinha, mas ela tem três filhos. Um, infelizmente, faleceu ano passado, morava aqui com ela. Ela tem uma filha morando no exterior e outro que não dá notícias há uns 10 anos, pelo que me contou. Sinto que é muito sozinha, mas estou aqui para ajuda-la também. Trabalha na rodoviária vendendo passagens. Deveria estar aposentada, mas, ao que parece, ficaram com pena de manda-la embora. Marido não tem, ele foi embora quando os filhos ainda eram crianças. Uma guerreira, um exemplo de mulher batalhadora.

Quarta-feira, 16 de Junho de 2010.
As coisas vão bem, nem tempo para escrever aqui tenho. Meu filho está adorando a casa nova, não nos falta nada. Faço companhia e ajudo à senhora. Estamos felizes. Só sinto muita falta da minha mãe, ficou com a minha irmã. Não volto mais pra lá, não me arrependo. Espero poder trazer elas para cá o mais rápido possível.

Sexta-feira, 18 de Junho de 2010.
O improvável, o impossível aconteceu: ele apareceu. Sim, ele apareceu aqui. Não sei como, mas conseguiu descobrir onde estou e veio aqui. Estou com medo, veio e falou com a minha patroa. Ainda bem que ela não disse nada, não confirmou a história. Eu contei para ela tudo o que se passou, tudo o que ele me fez. Ela entendeu minha situação e me apoiou. Se aparecer aqui novamente, vou à polícia.

Sábado, 19 de Junho de 2010.
Estou mantendo este diário como forma de ter um registro de tudo o que acontece comigo. Tenho medo. Eu o vi passar na rua, ao longe. Não saio mais de casa. Meu filho também nem brinca mais do lado de fora. Medo é a palavra mais comum aqui.

Segunda-feira, 21 de Junho de 2010.
Não aguento mais, nem a polícia dá jeito. Fui e dei queixa, mas não fizeram nada. Devem estar esperando que aconteça algo.

Quarta-feira, 23 de Junho de 2010.
Meu filho sumiu. Estou desesperada. Já procurei em tudo quanto é lugar, mas não o encontro. Estou aqui escrevendo para manter o registro, quero que tudo fique noticiado. Estou voltando para as ruas, se aquele filho da mãe fez algo com o meu filho, ele vai se arrepender profundamente. Minha patroa também está me ajudando, mas não obtivemos nenhuma pista, até agora.

Sábado, 26 de Junho de 2010.
Estou eu aqui de volta à minha cidade natal. Aquele cara (cujo nome não gosto nem de mencionar) está com o meu filho. Eu terei de fazer o que ele pede, senão ele mata o meu bebê. Eu não posso falar com a polícia, em quem iriam acreditar, em mim ou nele? Claro que nele. Ele é bastante influente. Eu estou tão desesperada.

Segunda-feira, 28 de Junho de 2010.
Por que eu? Tantas mulheres no mundo, por que ele tinha que escolher justamente a mim? Eu tive que voltar a fazer certas coisas que não me orgulho. Tive que me submeter aos caprichos de pessoas. Eu ouvi a voz do meu filho ao telefone, sei que está vivo. Estou tentando descobrir onde ele está.

Terça-feira, 29 de Junho de 2010.
“Jornal da Tarde”
Após receber uma denúncia, a polícia encontra o corpo de uma mulher com uma criança a abraçando. Trata-se de Laura Silva Medeiros, 29 anos, natural deste município. Segundo o que apurou a nossa reportagem, ela havia tentado mudar de vida, mas não teve chance, encontraram-na morta em um farol abandonado. Mais informações estarão disponíveis em breve.

Terça-feira, 29 de Junho de 2010.
Programa de TV “Acontece na Cidade”
Foi encontrado hoje o corpo de Laura Silva de Medeiros. O seu filho, o menor P.S.M., estava abraçando o corpo já sem vida de sua mãe. Pelo que apurou a polícia, Laura era obrigada a cometer crimes em nome de Jucier de Magalhães. Eles iam de prostituição, tráfico de drogas a assassinatos. O corpo de Jucier foi encontrado no mesmo lugar, um farol abandonado no município vizinho. Aparentemente, ela foi tentar resgatar o seu filho que era mantido em cárcere por Jucier. Um diário foi achado também. Ele servirá como base para as investigações. Em breve, mais informações.

Quarta-feira, 30 de Junho de 2010.
Programa de TV “Acontece na Cidade”
Como foi noticiado ontem pelo nosso programa, a polícia conseguiu apurar o que aconteceu no farol abandonado. Mesmo em estado de choque, a criança conseguiu descrever o que aconteceu. Usando as suas palavras, disse que sua mãe chegara para salvá-lo, conseguindo descobrir onde o homem mau o havia deixado. Jucier os surpreendeu, houve troca de tiros, e Laura conseguiu matar o sequestrador. Pediu que o filho o abraçasse, fez uma ligação em seu celular e esperou. Estava ferida mortalmente. Pouco antes de a polícia estourar o cativeiro, Laura morreu devido à hemorragia. A criança está aos cuidados da avó materna. Que Deus guie os seus passos.

A Vizinha


Ele a olhava pela janela. Sentia sua tristeza e frustação. Todo dia era a mesma coisa: ela saia para trabalhar com aquele olhar abatido, tentando disfarçar algo. Tentava esconder de todos o que realmente sentia, tentava esconder de todos os seus sentimentos. Tentava em vão. Não tinha como, ele a conhecia como ninguém, sabia que tinha algo errado.

Já há vários dias a mesma coisa. Já há vários dias o mesmo olhar. Já há vários dias aquele pesar. Não tinha como ele não perceber, se tinha alguém que conhecia aquela garota bem mesmo, esse alguém era o seu melhor amigo, o seu vizinho. Se alguma coisa acontecia, se tinha algo que a deixava triste, se tinha algo que a consumia por dentro, por que não dizer? Por que tentar esconder?

Não, ele gostava demais dela. Não podia deixar as coisas acontecerem sem tentar ajuda-la. Era o seu melhor amigo, tinha que tentar ajudar. Na verdade, desde criança, sentia por ela mais que amizade, sentia por ela algo maior. Tentava entender o que sentia, tentava entender o que ela sentia. Tentava entender...

Ele a olhava pela janela. Sentia sua tristeza e frustação, mas havia um momento em que tudo sumia: quando se encontravam, quando aqueles olhos dela, azuis como o mar, encontravam os olhos escuros dele. Um sorriso cheio de felicidade vinha. Eram alguns segundos, mas pareciam horas, os dois se olhando, sem dizer muita coisa. Nem precisavam, pra falar a verdade. Apenas com o olhar já se entendiam. Apenas com o olhar já diziam tudo. Era como se ela pedisse ajuda. Era como se ele tentasse procurar o motivo. Era uma verdade velada.

Nem sempre foi assim, nem sempre foi triste. Quem a conhece mesmo, sabe. Ela era a felicidade em pessoa, sempre com o maior sorriso, sempre distribuindo simpatia. Quem a conhece mesmo... Será que ele a conhecia mesmo? Como, de uns dias pra cá, tudo mudou?

Pensou, pensou, refletiu, mas nada. A única maneira era chegar nela e perguntar o que se passava. Sabia que ela não gostava muito de dizer o que sentia com todas as palavras, mas iria tentar.

Esperou ela voltar do trabalho. Ele morava sozinho desde quando se mudou para o mesmo prédio dela, há 2 anos e 4 meses. Ela morava com a mãe e seus 2 gatos de estimação. Encontraram-se na portaria, fingiu que havia chegado naquele momento também. Cumprimentaram-se e subiram, era o mesmo andar.

No elevador, a mesma coisa, os mesmos olhares camuflados, mesmo naquele momento. Ele tentou puxar assunto, mas ela sempre cortava. Será que não queria se abrir com o seu melhor amigo? Nem com ele, que esteve sempre ao seu lado?

Foram caminhando até a porta do apartamento dela. Ela entrou e, quando ia fechar a porta, o chamou para entrar um pouco, para conversar. Parecia segurar o choro. Ele entrou.

Ela pediu para que ele a esperasse um pouco, iria lavar o rosto e já voltava. Ele sentou no sofá e esperou. Algo chamou a sua atenção: a casa dela estava tão vazia, tão triste... Ela voltou, havia trocado de roupa também, colocou algo mais confortável, e veio sentar ao seu lado.

Estava muito triste, estava segurando o choro. Ele disse que não havia nada que ela não podia contar, que estaria sempre ao seu lado, tentaria procurar uma maneira de ajuda-la, não importava o que fosse preciso. Ela o abraçou, agora já chorando. Alguns minutos assim, apenas com ele a consolando e ela chorando.

Enxugou os olhos, aqueles olhos azuis, agora avermelhados, e beijou a boca dele. Um beijo cheio de desejo, um beijo a muito aguardado pelos dois. Pediu desculpas depois, falou que sempre quis beijá-lo, que o amava muito, mas que não o merecia.

Ele a segurou firme, pediu que parasse de falar besteira, ele sempre a amou, que estava lá pra ela, estava lá por ela, estava lá porque a amava e se preocupava com aquela garota que estava na sua frente.

Ela se levantou do sofá, se ajoelhou em sua frente e pediu perdão. Disse que havia feito algo terrível, que ele tinha que sair dali. Ele ficou sem entender. O que estava acontecendo?

Agora ele sentia um cheiro forte. Não conseguia sentir antes, estava com o nariz entupido, estava gripado. Mas agora o cheiro já estava forte. Perguntou a ela que cheiro ela aquele. Ela começou a chorar novamente. Ele levantou e seguiu em direção à fonte do cheiro, onde estava mais forte. Parecia vir de um quarto. Ela nem tentou o impedir, ficou lá, ajoelhada, com as mãos no rosto, e chorando.

Chegando ao quarto, logo perto da porta, viu um tufo de pelos. Entrou pela porta e se deparou com uma cena horrível: os gatos estavam mortos, em cima da cama. Parece que haviam sidos cortados, havia sangue em toda parte.

Uma cara de terror e pavor agora era o que ele tinha. Não sabia o que fazer, não sabia o que dizer. Viu uma trilha de sangue que ia em direção ao banheiro da suíte. O medo tomou conta dele. Assustado e nervoso, seguiu em direção àquelas marcas. Nossa, era demais para ele. A mãe do seu amor estava na banheira, morta, cheia de cortes. Sangue, muito sangue.

Levou as mãos à cabeça e se ajoelhou, incrédulo. O que havia acontecido? O que... Nesse momento, sentiu uma facada pelas costas. E outra, e outra. Olhou para trás e viu o que mais temia: aquela garota que amou desda infância, em prantos, segurando a faca ensanguentada. Foi a última coisa que viu, a última coisa que sentiu. Não via mais nada, não sentia mais nada. Fechou os olhos e morreu.

Um grito no apartamento. Uma garota voando pela janela do 15º andar, caindo em cima de um carro estacionado na rua. Desfecho digno de filme, de páginas policiais. Desfecho de uma história perturbada, de uma mente insana.

Ele acordou, havia dormido olhando pela janela. Já era 18h. Assustado ainda com o pesadelo, por ter dormido a tarde inteira, olhou e a viu, o seu amor, o olhando pela janela. Morava no primeiro andar, dava para ver quem entrava e saia do prédio, viu bem a hora que ela chegou do trabalho, abriu um sorriso e mandou um beijo.

Ela morava no 15º andar mesmo, como no sonho. Morava com a mãe e dois gatos, como no sonho. Uma pergunta veio a sua mente: Por onde anda a mãe do seu amor? Dias que não a via...

Pânico na Floresta


Ela corria, o medo e o escuro só aumentavam quando ela sentiu suas pernas ficarem cada vez mais fracas. O medo e o pavor tomavam conta.

Caiu no meio da floresta. Não conseguia enxergar direito por onde andava muito menos de onde tinha vindo. Não conseguia se levantar, estava exausta.

O uivo, ao longe, foi a única coisa que ouviu. Foi o bastante para conseguir um pouco de força e continuar a correr. Correr para longe daquilo.

Sem forças, caiu novamente. Dentro de si, sabia: chegou a sua hora. Não conseguia gritar. Não conseguia pedir ajuda. Chorar era a única coisa que lhe restava. Então, chorou. Chorou batante.

Não queria morrer. Tinha apenas 15 anos malfeitos. Ainda tinha muita coisa para aproveitar da vida.

A sede de viver era muita. A vontade de seguir em frente e fugir daquilo a fez ficar em pé novamente. Cada passo era um desafio. As pernas não paravam de tremer.

E o uivo? Cada vez mais perto. Ela ouvia. Engoliu o choro e continuou no penoso caminho. Podia sentir o bafo quente da criatura se aproximando.

Ouvia, agora, nitidamente o barulho das garras se aproximando cada vez mais. Não tinha coragem de olhar. Seguiu bravamente enquanto pode...

Sentiu um golpe. Apenas um. Algo a empurrou fazendo com que batesse a cabeça em uma pedra. Sentiu o sangue jorrar, sentiu perder as forças, sentiu que tudo se apagava.

Novamente aquele bafo quente. Agora sim, real. Era o bafo de um animal grande. Não poderia ser um lobo, lobos daquele tamanho? Isso não seria possível. Ainda tonta, sentiu ser levada. Sentiu a pelagem da criatura, agora andando ereto enquanto a segurava.

Tentava gritar, mas a exaustão e, agora, a dor que sentia a impediam. Ainda fraca pela perda de sangue, ainda sem forças, tentava sair das mãos daquilo. Em vão. Não conseguia. Era muito mais forte do que ela.

Medo agora era a palavra. O que queria com ela? Por que a perseguiu pela floresta, à noite? Ela estava tranquila antes, estava caminhando pelo lago, observando a lua cheia que nascia. Estava maravilhada pelo espetáculo que acontecia, nem percebeu que este poderia ser o seu último.

Chegou a uma caverna no pé de uma montanha. Não enxergava mais nada, estava muito escuro, realmente. Apenas a luz da lua na entrada fazia com que soubesse que era uma caverna.

Barulhos, grunhidos na verdade, de pequenas criaturas. Não conseguia ver direito, mas pareciam uma versão miniatura daquilo que a trouxe para aquele lugar.

Medo. Medo era o que sentia, mas por pouco tempo ficou sendo o que sentia mais forte. Agora era a dor. Sentiu a sua perna esquerda ser dilacerada, como se fosse cortada por algo afiado. Gritou alto. Chorava e soluçava. Pedia para parar, que não aguentava mais.

Era o fim. Chegou o fim. Seria morta brutalmente em uma caverna escura. Que fim para uma garota que apenas gostava de passear pelo lago...

Quando esperava pelo golpe fatal, ouviu a criatura berrar. Um berro de dor. Tonta por tudo o que estava acontecendo, sem conseguir enxergar muito bem, viu apenas a criatura cair, ao seu lado.

Conseguiu se arrastar para longe daquilo, e sentou. Ouviu ainda mais dois grunhidos e berros, agora mais fracos. Não entendia nada.

Viu que algo ou alguém se aproximava. Deitou-se em posição fetal, tentando se defender de um possível novo ataque, protegendo a cabeça. Ouviu uma voz dizendo:

- Calma! Estás muito ferida! Agora apenas relaxe...

Não podia acreditar. Era uma pessoa que estava ao seu lado. A mão do homem começou a brilhar, estava segurando a sua perna bastante ferida. O brilho fez com que sentisse melhor, a dor havia passado.

- Não consigo fazer melhor aqui. - falou o homem. - Venha, deixe eu te segurar!

Não sentia dor. Não sentia medo. Sentia que podia confiar em seu salvador. Ele havia lhe tirado de perto daquelas criaturas e, aparentemente, acabou com todas.

Chegando do lado de fora da caverna, pode ver quem era o seu herói: Kalinus. Sim, Kalinus, clérigo do templo da sua cidade. Ele que povoava os seus sonhos.

Sonhava com isso, sonhava que, um dia, seria salva por ele. De pesadelo, passou a ser um doce sonho real. Como é que são as coisas. Havia sonhado noites e noites com o que ocorrera, mas nunca pensou que poderia vir a se tornar real.

Aquela noite na floresta tornou-se o início de uma história que nunca mais foi esquecida por ambos, o dia em que o sonho se tornou real, o dia em que encontrou o seu herói, o dia em que o herói apareceu, o dia em que tudo começou...

Semelhança entre um Corvo e uma Escrivaninha


Estava andando por uma estrada sem fim, procurando algo que não conseguia achar, algo que não podia ter, até que encontrei com um macaco-voador. Espantado fiquei, não podia crer: um macaco que voa.

Voando, ele me falou (e fala!) que teria que seguir pela estrada de tijolos amarelos se quisesse chegar no castelo da Rainha de Copas do Oeste. Após isso, sai voando em direção ao horizonte. Mais espantado fiquei ao ver que uma lebre passa correndo por mim, pára no meio da estrada, aponta para o relógio e diz que eu estrou atrasado.

Comecei a seguir aquele animal incomum. Já que deveria seguir por aquela estrada, e a lebre estava indo por ela, achei que deveria segui-la. Se fosse pra seguir, que siga bem seguido. E foi o que fiz: segui.

De instante em instante ela parava e me mostrava o relógio. Reclamava bastante que eu estava atrasado, mas... Atrasado para quê? Nem conseguia falar com ela, partia em disparada.

Chegamos em uma floresta, onde a estrada continuava. Segui floresta a dentro, sem medo, seguindo os tijolos amarelos. Em um canto estava uma lagarta sentada em um grande cogumelo, fumando e conversando com flores. Olhou pra mim e disse:

- Siga a estrada e não fique xeretando os outros!

Obedeci prontamente, afinal, o que poderia estar falando de tão importante uma lagarta? E ainda mais com flores?

Agora me dei conta... A lebre sumiu. A estrada sumiu. Apenas a mata, agora diferente. Parecia... parecia... Sim. Era um milharal. Como uma floresta, cheia de bichos fumantes e flores, animais apressados e estradas de tijolos amarelo some assim. E o pior, como se transforma em um milharal?

Segui até uma estrada de barro onde vi, ao longe, a figura de um espatalho. Estava lá, parado e... Sorrindo? Estranho, muito estranho. Me aproximei. Ele olhou pra mim e falou:

- Estou aqui atrás de um cérebro. Você tem algum aí?

- Não tenho, não tenho o costume de levar isso comigo... - respondi.

- Droga! Me disseram que a Rainha de Copas do Oeste poderia me conseguir um cérebro, mas eu sou muito burro para chegar lá sozinho... - lamentou o espatalho.

- Bom, me falaram para ir para lá. Quer ir comigo? - perguntei.

- Claro! Não estou fazendo nada aqui mesmo. E é melhor irmos antes que aqueles móveis voltem! - falou o Espantalho, já querendo sair correndo.

A dita estrada de tijolos amarelos apareceu novamente. Estranho... as coisas aqui vem e vão... enfim, seguimos. Foi quando vi, no céu algo se aproximando. Não consegui saber o que era. Foi se aproximando, se aproximando. BAM. Uma garota caiu em cima de mim.

Ela foi se levantando, se limpando, e disse:

- É, Totó, acho que não estamos mais no Kansas...

Ela olhou pra mim e disse:

- Totó? Você não é o Totó!

Nesse momento, a tal lebre passa correndo, agora perseguida por um cachorro.

- Totó! -, grita a garota, - Espere, Totó!

Ela sai em disparada atrás dos dois. Eu e o Espantalho vamos juntos, estavam correndo e seguindo a estrada.

A lebre, assustada, entra em uma toca ao pé de uma árvore. O Totó fica louco, latindo sem parar. A garota consegue segurar o seu cachorro e começa a acalmá-lo. Eu vou tentar acalmar é a lebre. Consegui fazer com que saia, mas apenas se a garota ficasse de olho naquele cachorrinho monstruoso, afinal eu estava atrasado, não tinha tempo a perder.

Seguimos todos pela estreda rumo ao oeste. A turma estava aumentando. Agora tinha uma lebre, um espantalho, uma garota e um cachorro. A lebre parou e chamou a atenção para um lugar.

A lebre seguiu correndo novamente. Fomos atrás. Encontramos uma grande mesa.

- O chá está servido! Venha! Pegue o seu chapéu e sente! - fala a lebre.

Chapéu? Sim. Era um chapéu com o meu nome. Caiu direitinho. Ficou muito bom, combinava comigo. Já que estamos aqui... Vamos comer e beber.

Nessa hora, o Espatalho grita:

- Nãããããão!

Não deu tempo de fazer nada. Móveis voando vieram para cima dele. Ele foi atacado por móveis voadores. Mais precisamente escrivaninhas. Escrivaninhas atacaram o espatalho.

Apenas lembro quando ele, caido, olha pra mim e pergunta:

- Qual a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha?

Nessa hora tudo muda, estou no meu quarto. Está rolando um DVD do Pink Floyd. Tenho uma garrada de vodcka em mãos. Tá explicado: nunca misture Pink Floyd com vodcka.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Invocação


Não consigo mais correr. Estou muito cansado. Muito mesmo. Estou fugindo desde quando fui descoberto. Minha sorte é conhecer esta floresta com a palma da minha mão. Consegui despistar meus perseguidores. Idiotas. Quem eles pensam que são? Achariam mesmo que conseguiriam me pegar, aqui, em meu território? Desde pequeno brinco por aqui, conheço cada lugarzinho escondido, cada refúgio.

Estava eu passeando, como de costume, perto do pôr-do-sol, lá pras bandas do rio Vertige, quando escuto passos pesados. Era um batalhão do exército imperial. O quê aqueles caras estariam fazendo ali? Escondi-me e comecei a segui-los. Atravessaram o rio, chegaram às Ruínas Perdidas. Eram doze soldados armados com espadas e escudos. Pareciam determinados a achar algo. Mas o quê? O quê estariam procurando?

Minha curiosidade ainda me mata. Já era noite e eu ainda estava lá querendo entender o que se passava. Idiota. Por que ainda estaria ali, espiando soldados imperiais? Esses caras são conhecidos por não serem muito gentis com prisioneiros, todo mundo sabe disso. Eu tenho que saber o que procuram, eu preciso saber.

Eu já estava ficando com sono. Estava quase esquecendo de onde estava e dormindo ali mesmo, quando um dos soldados grita: “Encontrei!”. Sim, mas... Encontrou o que? Levantei. Olhei e tentei descobrir o que era. Ele levantava uma espécie de livro. Parece que estava escondido debaixo da terra, tinham vários buracos pelas ruínas, pareciam procurar uma espécie de tesouro enterrado. Que estranho. Um livro?

Um dos soldados, provavelmente o capitão, pega o livro e o abre. Parece não entender nada do que está escrito. Burro. Nem ler sabe. Só deve saber mesmo é matar inocentes. Nunca vou esquecer-me do massacre da vila de Missindur. Todos foram mortos em nome do rei. E que rei é esse que temos. Um tirano safado que só quer saber de lucrar com impostos. Opa. O que é aquilo? Quem é aquele perto do capitão? Não estava ali. Eu juro. Aquele homem com longos cabelos grisalhos não estava ali. Ele segura o livro, parece maravilhado, está com os olhos esbugalhados, como se fosse uma criança que encontrara o seu brinquedo preferido. Que estranho, nunca tinha visto tal sujeito. Ele parece saber do que se trata, começa a ler o livro. Ler? Pra mim eram palavras sem sentido, nunca tinha ouvido nada do tipo. Que língua era essa? E eu lá, perto, escondido. Deveria ter saído enquanto pude. Agora que não consigo mesmo, estão todos ali. Maldita curiosidade.

Medo. Um calafrio percorre meu corpo. Começo a suar frio. Que sensação ruim. Parece que estou em um cemitério. Sinto o cheiro da morte. Sinto o cheiro de sangue. Eu vejo até uma névoa vermelha rodear a pessoa que está lendo o livro... Névoa vermelha? Nossa. Como pode isso? O que será isso?

Ouço gritos de dor, gritos de desespero. Os soldados... Oh, não. Os soldados estão... Estão... Mortos. Todos os soldados que estavam ao redor daquele cara com o livro estão mortos. Até o capitão, que parecia saber bem o que fazer, está no chão. A névoa vermelha... Sim, era o que eu temia: sangue. É uma névoa de sangue. Sinto vontade de correr. Minhas pernas não obedecem. Não consigo me mexer. E se o mesmo acontecesse comigo? Fico ali mesmo, quietinho. Tenho medo de que escute o meu corpo tremer.

A névoa vai se juntando. Parece tomar uma forma humana. Cada vez mais rápido começa a girar. A pessoa que segura o livro ri, em êxtase. Maldito feiticeiro. O quê foi que fez? Que magia necromante usou? Seria... Oh, não. Não. Por favor. Tudo menos isso... As lendas... As lendas... As lendas eram reais. Aquele só poderia ser o Livro dos Mortos, escrito pelo próprio deus do mundo dos mortos, Kaven. Então estava aqui, nas ruínas. Quem diria. Nunca imaginei que estivesse tão perto. Se o tivesse encontrado, já teria o destruído. É um livro muito poderoso, traz rituais para invocação de demônios e animação de mortos. É uma blasfêmia sem fim. Diz à lenda que, quem o possuir, terá força suficiente para invocar o exército de Kaven e dominar todo o mundo. E agora? Ele foi descoberto. O Livro dos Mortos foi descoberto. Eu não sou soldado. Nunca gostei, sequer, de briga. Sempre evitei, ao máximo, situações do tipo. Sempre gostei de ficar aqui, curtindo a natureza, após o trabalho na minha casa. Era um trabalho duro esse, cuidar dos animais logo cedo, da plantação. Sempre gostei de relaxar, fumar meu cachimbo, beber e comer. E agora encontro um louco invocando demônios. O que farei?

As risadas viraram gritos. Aquele louco rindo agora está gritando. Gritos de dor. Parece sofrer. Tendo ver o que está ali. Aquele ser está com o braço transpassando o corpo do seu invocador. Nossa. Só ouço gritos. A mão da criatura sai de dentro do corpo segurando parte dos órgãos internos daquele louco. Ele mexeu com forças ocultas. Ele não devia saber como controlar. A criatura invocada matou a pessoa que o chamou. Depois disso, segura o livro com uma mão e começa a andar em direção oposta à minha. Que sorte. Uma oportunidade de fugir.

Eu levantei e corri. Corri como nunca. Corri desesperadamente. Corri para salvar minha vida. Atravesso a floresta mais rápido que qualquer animal selvagem. Cansado. Estou muito cansado. Não aguento mais correr.

Chego até minha casa. A voz me falta. Tento explicar para meus pais o que eu vi. Não consigo. Não tenho forças. Caio no chão. Procuro o ar. Não consigo respirar. Estou sufocando. Vejo o rosto de desespero deles. Eles não sabem o que fazer. Minha mãe chora, tenta me levantar. Meu pai ainda tenta ajudar, me segura, mas não consegue mais, a idade não deixa. Escuro. Tudo fica escuro. Ainda sinto calor. Quente.

Bom, foi isso que aconteceu. Foi assim que cheguei ao mundo dos mortos. É tudo o que lembro dos últimos momentos de minha vida. Meu corpo explodiu. Parece que parte daquela névoa eu aspirei. Meus pais, coitados, morreram também. O que tinha no meu corpo se espalhou pelas redondezas. Tudo o que foi de animal e planta morreu. O demônio invocado naquele dia está à solta. Quem poderá detê-lo? Como conseguir pará-lo? E o livro? Será que conseguirão toma-lo de volta?

O Segredo da Alegria


Mais um dia de trabalho na vida do atendente de lanchonete Ricardo. Ele trabalhava na mais famosa da região. Sempre com um sorriso no rosto, era sempre escolhido o “Funcionário do Mês.” Era um exemplo a ser seguido pelos seus colegas. Nada parecia abalar o jovem rapaz, nem mesmo aqueles clientes chatos que gostavam de tirar onda com todo mundo.

Uma vez o perguntaram qual seria o segredo de sua alegria. Ricardo parou, deu um sorriso sarcástico e disse:

- Olha, eu sempre venho trabalhar bem animado. Esse é o segredo. Animação. Humor.

Em plena segunda-feira? Quem em santa consciência vem trabalhar bem humorado em plena segunda-feira? Ricardo. Ricardo vinha.

Um beco escuro de um bairro de periferia. Ao lado da lata do lixo jaz o corpo de uma moça. Aliás, só percebe que é um corpo quem tem muita imaginação. Tem tanto pedaço que demoraria horas, quem sabe dias, para montar este quebra-cabeça. A polícia estava no local averiguando com populares. Ninguém viu nada. Domingo à noite, ninguém prestou atenção quando os restos da jovem foram largados ali. Ainda mais num canto remoto e escuro.

Já era a décima segunda vítima no período de três anos. A imprensa querendo saber mais. O secretário de segurança querendo a cabeça de alguém. O prefeito ameaçado por populares. Era uma bagunça, realmente. Quem quer que seja que esteja fazendo isso é muito meticuloso, analisa bem cada detalhe e não deixa vestígios que levem à sua captura. Até mesmo gente de fora tinha chegado para analisar o caso. Nada. Nenhum suspeito.

Sábado é dia de sair para espairecer. Ricardo gostava de sair sozinho para as festas e ficar no bar, no canto, bebendo e observando. Esperava o momento certo de chegar na garota. Não era muito tímido, mas uns goles a mais de vodca sempre o ajudavam. E, claro, o momento certo. Então ele esperou. Esperou o momento certo. Ah, claro, com a morena de lábios carnudos que estava dançando sozinha. Era o seu tipo preferido. Viu que ela já tinha esnobado alguns caras, mas confiava no seu taco. E o cara é bom mesmo, bastaram poucos minutos para estarem se beijando no canto. Mais alguns minutos e estavam indo para a sua casa, em um bairro de periferia, cerca de 20 km dali. Gostava desta boate porque era bastante discreta, as pessoas iam e vinham sem serem incomodadas, apenas pagavam a entrada, consumiam, se divertiam e pronto. Era o seu local preferido para ir à caça de mulheres.

“Qual o segredo da alegria?”, pensou Ricardo, sozinho, quando saiu para o almoço.
“Fazer o que gosta.”
“O que eu, Ricardo, gosto?”
“Dor. Prazer. Morte. Sangue. Retalhar. Matar...”

O segredo da sua alegria era fazer o que gostava. Quando lembrava das garotas estripadas, um largo sorriso lhe tomava o rosto. Cada corte, cada músculo separado, cada osso cortado.

Você deve estar se perguntando: “Ele foi pego?”. Sim. Ele foi pego. Infelizmente (para ele) acharam, por acaso, a sua coleção de globos oculares em conserva. Uma futura vítima, em um momento de descuido da parte do “Maníaco dos Olhos” (como ficou conhecido), encontrou um pote de pickles na geladeira. Era amante de pickles. Quando, animadamente, pegou um e deu uma bela de uma dentada, para sua surpresa, não era um pickles. Era um olho castanho claro. Ela gritou tanto, teve um ataque e pulou pela janela da casa de Ricardo. Moradores a ajudaram, chamando logo a polícia que veio e prendeu o rapaz.

Ricardo está preso até hoje, quinze anos depois. Bem comportado, não se mete em confusão, estão analisando sua ficha e, muito provavelmente, vai ser posto em condicional. O juiz até perguntou, em audiência, qual o motivo daquele largo sorriso em seu rosto.

- Estou feliz porque poderei voltar a ser atendente de lanchonete. - respondeu Ricardo. E o sorriso continuava...

Passando Pelos Círculos


Comecei a andar pela trilha. Apenas um caminho havia. Comecei a seguir. Passo a passo. Cauteloso. Não dava para enxergar muito bem, uma névoa estava cobrindo todo o percurso. Mesmo assim segui.

Ouvi zumbidos ao longe. Não consegui identificar, mas pareciam vespas. Ouvi gritos. Gritos de dor. Gritos de pânico. Parei. Olhei para os lados. Nada encontrei. A névoa foi se dissipando. Passei a ver vultos ao longe. Nossa. Que visão perturbadora. Vi pessoas correndo, desesperadas, com vespas e moscas gigantes as perseguindo, sendo picados e gritando. Passei sem ser incomodado.

Cheguei à beira do rio. Olhei para um lado, olhei para o outro e nenhum sinal de ponte. Eu sabia que tinha que atravessá-lo, só não sabia como. Uma voz me dizia para soar a trombeta. Olhei mais atentamente para minha esquerda e lá estava, uma trombeta feita com um chifre de algum animal. Foi o que eu fiz, segui o que a voz dizia.

Vi surgir lá do outro lado do rio um barco. Ele veio navegando, lentamente, até o meu encontro. O barqueiro avisou que para me levar ao outro lado do rio eu deveria pagá-lo. Neste momento bati as mãos nos bolsos. Peguei em um deles uma moeda de ouro. Olhei assustado, não sabia como havia a conseguido. A voz dizia para entregar e prosseguir. Foi o que eu fiz.

Toda vez que tentava puxar assunto, o barqueiro me ignorava. A viagem demorou alguns minutos. Ele avisou que, quando retornasse, poderia chama-lo. O pagamento era ida e volta. Era a única moeda que eu tinha mesmo.

Desci do barco e, quando fui caminhar, senti todas as minhas forças sendo sugadas. Nessa hora eu apaguei. Não me lembro de mais nada, apenas de acordar em um lugar escuro. Não sabia como cheguei lá. Vi um castelo ao longe. Parecia rodeado por um pequeno rio. Havia pessoas perto de mim, falavam e olhavam em minha direção. Segui andando até ser abordado por uma pessoa. Ele disse que se chamava Minos. Perguntou meu nome. Respondi. Ele disse que não deveria estar ali. Parou um pouco, leu em uma ficha algo e disse que eu deveria seguir. Disse também que eu saberia o caminho. A voz me disse para ir em frente. Foi o que eu fiz, segui em frente.

Cheguei a um lugar onde ventos fortes varriam tudo. Vi pessoas sendo levadas por estes ventos. Elas se machucavam, gritavam. Não podiam fazer nada, não conseguiam se segurar. Era forte, mas não o suficiente para me levar. Aparentemente, para eles era o bastante.

Andando pelo meu caminho, sempre orientado pela voz em minha mente, vi pessoas atoladas em lama. Uma forte chuva de granizo, gelo, neve, água suja caia constantemente. Uma visão perturbadora. E só aumentou o terror quando percebi um monstro ali presente. Era uma espécie de cão, só que maior, com três cabeças. Tinha também calda de serpente. Ele esfolava, arranhava, esmagava e dilacerava as pessoas que ali se encontravam. Gritos de terror, dor e pânico era o que eu ouvia. Segui em frente, desviando daquilo tudo.

Vi em um morro pessoas carregando enormes pedras que pareciam ser bastante pesadas. Alguns conseguiam chegar ao topo, mas eram forçados a largar o que tinham a muito custo levado até ali. Eram obrigados a recomeçar. Arranhões, cortes profundos, membros perdidos e quebrados era o de menos. Eles regeneravam-se e eram obrigados a refazer tudo. Continuei.

Cheguei a uma cachoeira do que pareciam água e sangue fervente. Vi um pequeno barco um pouco menor do que o do barqueiro que me ajudou a atravessar mais atrás. A voz me disse para seguir e atravessar aquele rio com a ajuda deste barco. Parecia ser perigoso, mas o fiz.

Pessoas tomadas por fúria estão por toda a parte. Elas se debatem, se estranham e chegam até mesmo a se enfrentarem. Alguns tentam até subir no barco, mas o impeço com chutes e golpes com remo. Percebo que algumas estão no fundo, atoladas na lama, sem conseguir sair. Os olhos daquelas pessoas e toda sua ira não sairão mais da minha cabeça.

Consegui atravessar o rio. Comecei a caminhar e logo encontro um portão do que deve ser uma cidade. Ela é cercada por fogo e um fosso profundo. Vi demônios no alto das paredes, alguns voando, outros apontando em minha direção. Percebi o alvoroço que causei. Eles pareciam bastante inquietos com a minha presença. Não demorou muito e alguns vieram me atacar.

Eu não podia fazer nada, estavam em maior número. Quando estavam chegando perto, um anjo chegou perto de mim e, com uma varinha, abriu o portão da cidade. Olhou para os demônios e falou:

- Ai de quem tocar nele! Se pensam que estão sofrendo agora, experimentem encostar um só dedo!

Após dizer isso, ele subiu e sumiu. Com um temor que parecia inesgotável, aquelas criaturas me deixaram passar. Ainda percebi, ao longe, um monstro gigante, com várias cabeças de serpente. Cada uma delas estava me olhando e encarando, mas encarei de volta e passei seguindo em frente.

Demorei um pouco para perceber, mas estava atravessando túmulos. Centenas deles. Milhares deles. Aquilo ali era um grande cemitério. Não nego, me senti desconfortável, mas precisava seguir.

Cheguei ao que parecia um grande precipício circular. Só havia um caminho a seguir. Fui andando por ele até encontrar um rio do que parecia sangue fervente. Imerso nele estavam várias pessoas. Algumas apenas com a sobrancelha para fora, outros tem apenas o peito de fora. Vi seres metade homem e metade cavalo atirando flechas em alguns que tentavam elevar-se. Pareciam guardar o lugar. Passei contornando sem que fosse notado.

Deparei-me com uma imensa floresta com árvores sombrias. Gritos lamentosos eram o que podia se ouvir ali. As árvores pareciam sofrer. Vi alguns seres emplumados fazendo ninhos em suas copas e, juro, saia sangue das folhas. Uma imensa tristeza era o que eu sentia nesse local.

Aquele lugar era realmente estranho, fui parar em um deserto incandescente, estéril e sem vida. Vi pessoas sendo castigadas por uma chuva constante de fogo. Por mais que tentassem correr, as chamas os atingiam. O desespero era inacreditável. O cheiro da carne queimada era insuportável. Corri para um rio que havia ali e segui por suas margens de pedra.

Um ser gigante me chama e oferece uma passagem até a próxima parte. Tratava-se de Gerião. Veio conversando comigo, perguntando o que eu fazia por ali, já que não deveria estar naquele lugar. Nisso, foram uns dez minutos de conversa. Nem percebi quando chegamos além do rio. Falou que deveria seguir a trilha e desejou-me boa sorte.

Estava em um lugar cheio de pedras e cor de ferro, como naquela muralha que passei. Existem vários fossos interligados com pontes. Vejo pessoas sendo açoitadas por demônios, obrigando-lhes a fazer o que desejam. Parece não ter vontade própria, são submetidos aos caprichos daqueles seres.

Outro lugar me chamou a atenção pelo cheiro. Cheiro forte de fezes e esterco. Vi pessoas imersas, mas não quis passar muito tempo por ali perto. Estava passando mal já. Apressei o passo.

Vi em outro lugar o que pareciam covas onde pessoas eram queimadas. O desespero era geral. Passei apressado e me deparei com uma cena bizarra: vi pessoas com as cabeças viradas ao contrário, andando e esbarrando uns nos outros, bem como caindo e se machucando. Não sabiam para onde andavam. Ao lado, vi piche fervente com pessoas submergidas. As que tentavam sair eram flechadas por demônios sádicos. Procurei logo a ponte que ligava à próxima parte, ao próximo fosso.

Passei correndo e vi pessoas com capas pesadas brilhantes, parecia chumbo. Não quis nem saber do que se tratava e passei apressado. Estranho o que estava por vir: vi pessoas sendo devoradas por serpentes. O mais esquisito é que algumas serpentes tinham traços humanos. Não fiquei para saber mais, corri. Os castigos estavam ficando piores. Parece que, quanto mais desço, piores eles ficam. Procurei logo a ponte.

Em outro fosso, vi pessoas sendo envoltas em chamas, oceanos de lava e tempestade contínua de raios. Não era um lugar muito bom de ficar, parti para a ponte que ligava à próxima etapa. Vi demônios munidos de espada golpeando pessoas. Cabeças cortadas, corpos mutilados, braços e pernas sem dono era uma visão constante. Atravessei outra ponte e caminhei para outro fosso. Aqui vi pessoas cobertas por lepra e sarna. Literalmente os seus corpos estavam podres. Cabeças decepadas, pessoas esqueléticas e sedentas estavam por toda parte.

Percebi que os fossos tinham acabado e me deparei com vários gigantes. Era, realmente, intimidador, fiquei imóvel. Um deles se aproximou e diz que o seu nome é Anteu, oferece para me ajudar. Subi na palma da sua mão. Ele me leva até a próxima parte.

Cheguei a um lago congelado. Vejo alguns submergidos até o tórax, outros até o pescoço. Vi também alguns com apenas os rostos para fora. Vi que alguns choravam e suas lágrimas logo congelavam. Vejo um caminho no gelo e sigo.

Cheguei a uma espécie de caverna e vejo um ser gigante, com três rostos. Ele estava preso até a cintura no gelo, mas suas asas de morcego estavam soltas. Cada batida delas produzia um vento que podia ser sentido de longe. Em uma rajada dessa eu me desequilibrei e caí. Para meu azar, rolei para perto da criatura. Não deu tempo de fazer nada, fui atacado por ela. Sua face do meio, em um golpe certeiro, me mordeu. Não senti nada, apenas tudo escureceu...

Dor não sinto. Não sei onde estou, está tudo escuro. Não consigo me mexer. Não tenho nada a fazer, a não ser esperar. Esperar não sei o quê. Esperar não sei por quem. Agora estou aqui, esperando. Apenas minhas memórias me fazem companhia. Eu e minha solidão. Eu e minha mente castigada. Não sei há quanto tempo estou aqui, não tenho mais noção de tempo. Um dia espero sair dessa situação. E espero.

O Ritual


Oito horas da noite. Um jovem atravessa a rua e chega à frente de uma casa. Toca a campainha.

- Oi, senhora Ribeiro. O Fernando está?
- Oi, Saulo. Ele está sim. Entre. Está em seu quarto. Quer que guarde sua mochila?
- Não, obrigado.

Saulo sobe as escadas e chega à porta do quarto do Fernando. Dá duas batidinhas e entra.

- Oi, Fernando.
- Opa. Entra aí, Saulo.
- Trouxe o que você me pediu, está aqui na mochila.
- Ótimo. Vamos esperar o Max. Ele virá de carro e nos levará até o lugar.
- Você acha mesmo que devemos continuar com isso?
- Vai amarelar agora? Tá com medo?
- Não é isso... É que... Tenho receio...
- Besteira. Vem. Deixa mostrar o jogo novo que comprei.

Quase que pontualmente, passando pouco das dez horas da noite, um furgão preto com desenhos que parecem fogo nas laterais estaciona em frente à casa dos Ribeiro. Uma figura mal-encarada, usando uma velha jaqueta jeans com logos de bandas de black metal, e cabelo moicano desce e se encaminha até a porta. Toca a campainha.

- Boa noite. Fernando, por favor.
- Espere um pouco... - a mãe de Fernando responde fazendo uma cara de desaprovação, um pouco de desapontamento, talvez, vendo aquele cara lá parado na frente de sua casa. Nem conseguiu virar e chamar o filho, ele e o amigo já estavam descendo as escadas e dizendo tchau.
- Tchau, mãe. Volto mais tarde.
- Boa noite, senhora Ribeiro. - responde Saulo.
- Boa noite, senhora. - diz Max, enquanto caminha até o furgão.

A mãe fica na janela, observando. Vê quando seu filho entra no carro. Um sentimento de medo e insegurança bate junto com um calafrio. Não sabia bem, mas aquele cara, o Max, nunca lhe pareceu ser boa pessoa. Ouviu falar que tinha saído de um reformatório há poucos meses. Não adiantava pedir para o filho deixar de andar com ele, era amigos desde sempre.

No furgão, os três amigos vão conversando. Max, na direção, parece um pouco tenso. Saulo está preocupado com algo. O mais relaxado é o Fernando, puxa uma latinha de cerveja de dentro da mochila. Mesmo um pouco quente, abre e começa a beber. Oferece a Saulo, mas ele não bebe nada. Max puxa a latinha e toma um gole.

O carro para em frente a uma casa. Max desliga o motor e apaga os faróis. Depois de dois minutos de espera, uma garota sai pulando a janela do primeiro andar, desce por uma árvore e chega ao carro, um pouco cansada, mas com um ar de felicidade sem tamanho.

- Oi meninos!
- Oi, Mércia! - os três respondem em coro.

Mércia é amiga de infância de todos. Eles tinham a mesma idade, dezoito anos. Todos cresceram juntos, estudaram sempre na mesma sala. Eram bons amigos. Era daquele tipo de amizade pra vida inteira e, quem sabe, além dela.
- O que vamos fazer hoje? - pergunta a curiosa garota.
- Você vai ver. Está tudo esquematizado. - responde Fernando.

Saulo observa tudo calado como sempre. Está perdido nos seus pensamentos. Faz uma cara de preocupação que chama a atenção de Mércia.

- Saulo? O que houve? Está tão preocupado...
- Nada. Não é nada.
- Aconteceu sim. Anda. Pode falar comigo...
- Ele disse que não é nada, então não é nada! - responde Fernando, atrapalhando a conversa.
- Tá, tá. Não está mais aqui quem perguntou. - responde Mércia, virando o rosto e olhando pela janela.

Já é quase onze horas da noite. As ruas da cidadezinha estão vazias. Não se vê ninguém andando por aí. Tudo está calmo e tranquilo. O silêncio só é quebrado pelo barulho do furgão cruzando as ruas. Estão chegando perto do cemitério.

- Cemitério? - pergunta Mércia. - Por que estamos indo a um cemitério? Pensei que íamos ao cais...
- Aqui é mais interessante. - responde Fernando.

Saulo está perdido em seus pensamentos, ainda. Parece em outro mundo. Continua a olhar pela janela, parece enfeitiçado pela lua cheia. Mesmo com os faróis desligados, parece que ela irá iluminar todo o caminho. Max está tenso na direção, está sem o seu som do carro. Tudo o que tem pra fazer o faz ouvindo música. Dirigir sem ouvir música é um martírio para ele.

O furgão para em frente ao portão do cemitério. Não parece ter ninguém por perto. Max dá a volta e para ao lado. Todos pulam o muro lateral, mais baixo, e entram naquele ambiente “acolhedor” para uns, “tenebroso” para outros.

- Certo. E agora? - pergunta a garota.
- Vem. Anda. Vamos ali. Quero mostrar uma coisa pra você... - responde Fernando, com um ar prepotente.

Max e Saulo vêm logo atrás. Todos carregam as suas mochilas. A única que não tem nada é a Mércia, está apenas com suas botas e jaqueta. Está uma noite um pouco fria.

- Aqui. Este é o lugar. - diz Fernando. Todos sentam em forma de círculo. Ele, então, puxa um isqueiro do bolso e acende uma vela que tirou da mochila, bota no centro. Partindo de Fernando e fazendo um percurso horário estão Saulo, Fernanda e Max, nesta ordem. Fernando, então, começa a falar.

- Eu estava caminhando pela Floresta Perdida...
- Você foi caminhar por lá? - interrompe Saulo.
- Deixa eu continuar, por favor. Bom, como dizia, fui caminhando por lá e fiquei perdido. Procurei e procurei o caminho de volta, mas não achava. Estava sem o meu celular. Quando já estava ficando sem esperanças de sair, encontrei uma gruta. Fui entrando, parecia tudo escuro, quando tropecei em algo. Parei para ver o que era. Para meu espanto, era isso!

Nesse momento, Fernando tira de dentro da mochila o que parece ser um velho livro. Todos olham curiosos. A luz da lua ilumina e todos podem ver claramente que se trata de um livro antigo, com uma capa singular.

- Isso aqui, na capa, é pele humana! O ruim é porque está escrito em um inglês arcaico, me perdi bastante para conseguir traduzir...
- Que nojo! - diz Mércia.
- Puts! Que maneiro! - responde Max.
- Viemos aqui para você mostrar isso? - pergunta Saulo.
- Calma, amigos. Saulo, me passa o que você trouxe.

Saulo tira da mochila uma faca de caçador e uma bacia que parece ser de prata.

- Isso é da minha mãe. Tenho que levar de volta. Se ela descobre que eu peguei, estou perdido...
- Calma! Não tem pra que ficar pensando nisso... - diz Fernando. - Vejam só...

Nesse momento ele se levanta, olha de lado. Parece procurar algo. Anda até uma árvore. A luz do luar ajuda a encontrar o ninho de um pássaro. Ele olha e encontra um filhote. Pega o pequeno animal com a mão, parece que a mãe não estava. Volta para junto dos amigos e senta no lugar onde estavam.

- Vejam só... - diz ele, enquanto segura o animal com a mão esquerda e, com a direita, a faca, sobre a bacia.
- O que você vai fazer? - pergunta a incrédula Mércia.
- Vejam!

Fernando começa a entoar dizeres que parecem ser em uma língua diferente, esquisita. Todos olham assustados e espantados. Ele, então, rasga o peito do filhote e coloca o pouco sangue e restos mortais dentro da bacia.

- Tá maluco? O que foi isso? - grita Mércia.
- Calma. Calma. Veja agora...

O filhote morto está no fundo da bacia. Fernando, então, a segura, levanta acima dos ombros e diz palavras esquisitas novamente. Quando põe novamente a bacia no chão, para espanto dos amigos, o filhote de pássaro aparece vivo e pulando. Todos ficam abismados com o feito. Que tipo de bruxaria seria aquela?

- Esse livro, meus caros, contém dezenas de rituais. Isso foi apenas um dos pequenos.

Todos estão espantados e abismados. Fernando se levanta, pega o filhote e o devolve para o ninho. Volta caminhando lentamente, enquanto os outros três estão conversando, espantados, e olhando o livro. Subitamente, ele chega por trás de Mércia e a golpeia nas costas. Crava a faca inteira no lado direito, enquanto a outra mão tapa sua boca. Não deu tempo para nada. Não conseguiu gritar, correr. Nada. Mércia cai morta.

Max levanta-se e desfere um soco no rosto de Fernando, que cai, espantado.

- Seu louco! Por que fez isso? - grita o furioso Max.

Saulo pula e tenta conter a fúria do amigo, Max queria partir pra cima de Fernando e quebrar cada osso do seu corpo. Ele sempre teve uma queda pela Mércia, nunca chegou a dizer isso a ela, mas sabia que a garota suspeitava. Sempre aquela troca de olhares mais insinuante. Saulo está transtornado.
- Calma, brutamontes. Veja isso.

Fernando se levanta e vai até sua mochila. Pega alguma coisa que não dava para ver o que era e começa a entoar cantos e dizeres. Coincidência? Não se sabe, mas, neste momento, nuvens taparam a lua. Tudo escureceu e apenas a luz fraca da vela poderia ser vista ali. Saulo ainda está tentando segurar Max, mas suas forças estão se esgotando. Todos ficam paralisados com a cena que vem logo a seguir: Mércia levanta-se. Sim, o corpo de Mércia está de pé. Saulo e Max ficam lá, parados, sem mover um músculo. Não conseguem acreditar. Mércia, a garota assassinada pelo amigo a poucos minutos atrás levantara.

- Mércia? - pergunta Max.

Ela permanece imóvel. Em pé, mas imóvel, com a cabeça baixa e o cabelo cobrindo o rosto. A faca ainda está cravada em suas costas.

- Desculpe. - diz Fernando. Caminha até lá e puxa a faca. Mércia não esboça reação nenhuma.

Saulo não consegue conter o seu medo diante daquilo, tenta andar para trás e tropeça caindo em cima de uma tumba. Max vai caminhando em direção de Mércia.

- Mércia? Mércia? - diz Max enquanto dá passos curtos e assustados.

Mércia levanta a cabeça, revelando um rosto sem vida, olhos vazios e totalmente brancos. Ela pula no pescoço de Max, mordendo com toda a força. Ele grita. Os dois caem. Sangue jorra, ela tinha cortado bastante fundo, chegando até a arrancar parte da pele. Enfim, solta o atordoado rapaz, que caminha tentando se levantar, segurando perto do ferimento, tentando fazer o sangue estacar. Não consegue andar muito, aquilo que parecia ser Mércia pula novamente em suas costas, o segura forte, derruba e começa a rasgar a sua pele, começa a dilacerar o seu pescoço.

Saulo levanta-se e corre. Tenta ir até o muro mais baixo que havia pulado para entrar. Não consegue dar nem 10 passos e é atingido nas costas pela faca. Olha para trás e vê que Fernando a arremessou. Cai e não tem tempo nem de perguntar o porquê, estava morto.

Mércia larga o corpo já dilacerado de Max e parte para cima de Saulo, começa a morder e rasgar tudo. Fernando só ri. Uma risada doente e maldosa. Parece em êxtase com os seus “poderes”, parece que o livro lhe deu algo que ninguém jamais poderia acreditar, o poder de invocar os mortos e os controlar. O riso dá lugar a gritos quando Mércia pula em seu braço.

- Eu sou seu mestre! Obedeça-me! - grita Fernando.

Mércia continua a morder e rasgar o seu braço, conseguindo, enfim, arrancá-lo. A criatura voltou-se contra o seu mestre. Clássico das histórias. Poderia a criatura sucumbir aos encantos do mestre? Poderia o mestre controlar a criatura?

- Garotos! O que estão fazendo aqui dentro?

Uma voz grita no meio do cemitério, fazendo a chama da vela tremular. Era o zelador do lugar, percebeu os gritos e foi ver do que se tratava, os garotos recolhem apressadamente tudo, jogando dentro da mochila e partem em disparada, pulando o muro e entrando no furgão. Mais uma aventura dos amigos inseparáveis. Mais um jogo de RPG que não tinha chegado ao final, mas que seria relembrado mesmo assim, como da vez que foram para a montanha e... Isso é outra história...

Lembranças de uma Guerra


Mais um dia de combate. O general ataca impiedosamente os seus inimigos. Já está na nona cidade, Mulfast. Mais uma, a última, até chegarmos à fronteira. Iremos invadir o quanto antes. Já limpamos tudo, essa escória não irá sobreviver. Estão recuando. Vamos atrás, nem que isso dure anos.

Ouvi falar que o general teve a família massacrada por esses rebeldes. Em sua louca luta por o que acreditam ser justiça, atacam cidades, saqueiam, roubam, pilham. Ghiruldor era uma pacata cidadezinha do interior. Viviam da agricultura. O que poderiam querer lá? Com ela não foi diferente, mataram todos, até crianças e idosos. Ele só escapou porque correu para a floresta, passou dois dias escondido. Depois disso jurou vingança. Iria procurar e limpar outros lugares atacados por essa escória.

E que luta é essa? Matar e destruir para conseguir provisões e armas para o “Exército da Libertação”, como se auto intitulam? Loucos. No início, era uma coisa até certo ponto romântica, uma luta por um ideal. Agora usam como desculpa para matar e estuprar. Esse é o motivo para os enfrentarmos. Essa história vai ter um ponto final. Essa batalha de anos vai acabar.

A província deles, Kosum, faz parte de Mégalus. Queriam que o nosso rei Ferdinam declarasse a sua independência, queriam se libertar. Aparentemente, não existe nada que leve a isso, sempre fomos um povo pacífico, nunca entramos em guerras. Dizem que é orgulho, são descendentes de uma linhagem de guerreiros, odeiam a paz, querem sempre guerrear. Como somos pacifistas, isso os incomodam. Querem a dita liberdade para poder fazer o que quiserem. Não é bem assim que o nosso rei quer que as coisas andem.

Começaram a invadir cidades perto da fronteira do território de Kosum e foram adentrando. Queriam impor pela força. Essa foi a desculpa, a independência. Quem se opôs teve o fim que mais esperavam seus agressores. Muitos morreram defendendo suas casas, seus vilarejos.

Pacifistas também tem limite. O general que o diga. Ficou louco quando viu o massacre da sua família, mas não podia fazer nada, era apenas uma criança. Esse foi o motivo de ter entrado para o exército real. Empenhou-se e trabalhou para conseguir chegar onde está, general do exército real. Eu sou apenas um sargento, cresci quando os ataques já ocorriam. Vi que não é nada bom guerrear. Vi amigos sendo mortos. Não quero mais isso. Nosso rei Ferdinam ainda é o monarca, está em idade avançada, mas parece muito bem disposto. Ele é um guia, uma inspiração para a guerra. Orgulho de suas ideias sempre visando o bem estar do povo. Guerra foi a última alternativa.

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Emboscada. Fomos vítimas de uma emboscada. Mataram todos do meu batalhão, apenas eu sobrevivi, por milagre. Estou ferido, mas estável. Sinto-me culpado pelos meus homens terem morrido. Estava seguindo as ordens do tenente. Eu tentei avisar que era muito arriscado seguir por aquele caminho, estávamos isolados do restante dos homens, mas ele não me ouviu e ordenou que seguíssemos em frente. Fomos massacrados. Desmaiei. Quando acordei, apenas corpos mutilados ao meu redor. Nossos inimigos já tinham saído de lá. Arrastei-me até aqui, as ruínas do que, aparentemente, era uma igreja. Espero que não voltem, ou estarei perdido.

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Estou a mais de doze horas aqui. Já destruí todos os papéis que levava, só guardo este diário ainda para que possa distrair a mente. Nossos planos não podem cair em mãos inimigas. O cheiro dos corpos em decomposição é muito forte. Pedaços estão espalhados por toda parte. Sinto-me muito fraco. Perdi muito sangue.

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Madrugada. Nenhum sinal de amigos ou inimigos. Nada. Acho que agora já posso sair e tentar procurar onde estão os outros. Espero ter forças para conseguir. Vou caminhar devagar, seguir pela floresta. Espero não encontrar aqueles loucos. Não estou em condições de lutar. Sede. Sinto muita sede. O quê eu aprendi sobre sobrevivência, espero ser útil.

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Encontrei uma casa isolada. Parece que os moradores saíram a pouco, ainda tinha uma mesa posta para o jantar. Nossa, que sorte a minha! Consegui beber e comer. Mas o que será que aconteceu com essas pessoas? E o que faz uma casa aqui na parte mais remota e isolada da floresta? Sempre achei que não existiam pessoas vivendo por aqui. Esta floresta é cercada por lendas e mistérios. Como não acredito nessas coisas, não tive nenhum problema em tentar seguir pelos seus caminhos.

Acho que vou ficar aqui mais um pouco. O sangramento parou, mas estou ainda fraco. Sinto-me melhor após a refeição. Só falta dizer que estavam me esperando, deixaram tudo pronto para mim. Vou me esconder e esperar aqui mesmo, é o jeito.

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Consegui descansar um pouco, pelo menos. E nada dos moradores voltarem. Hora de partir. Agradeço muito o quê encontrei. Espero que estejam bem, e que me desculpem por algo. Vou seguir ainda pela floresta. Ainda me resta muito chão pela frente. Vou cortar caminho seguindo por aqui. As ordens do general eram para contorna-la. Ninguém se atrevia a adentrar aqui. Vou acabar os encontrando mais rápido por aqui mesmo. O sol já está nascendo e preciso correr.

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Sabe quando você tem a sensação de estar sendo seguido? Estou aqui, abaixado atrás de uma pedra, escrevendo. Tive essa impressão enquanto caminhava. Podem ser meus inimigos. Sim, eles podem querer me pegar. Não vou servir de sobremesa para aqueles safados. Não, isso não. Querem me pegar? Vão ter que brigar.

Ouço vozes. Parecem crianças. São vozes fraquinhas e infantis. Seriam os filhos dos inimigos? Seriam os filhos dos donos da cabana? Vou procurar e tirar essa dúvida, quem sabe descubro algo.

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Sangue. Minhas mãos estão sujas de sangue. Eu matei aquelas garotinhas. Quando me viram, gritaram e correram. Eu não podia deixar que continuassem a chamar a atenção, peguei uma pedra e joguei. Acertei a cabeça de uma delas, parecia ter uns 6 anos. Ela caiu. A outra ficou em estado de choque, vendo a amiga caída. Vim e cortei a sua garganta. Ela parecia mais nova, cerca de 4 anos. Eu não podia deixar que elas ficassem gritando. Eu seria descoberto em pouco tempo.

Para ter certeza, cortei a garganta da primeira. Ela sangrou feito um animal e eu fiquei lá, vendo aquela cena. Duas crianças mortas. Não se pareciam com ninguém perigoso, mas eu não poderia deixar que revelassem a minha posição.

Vou confessar aqui o que nunca mais direi: senti uma louca sensação de bem estar quando as matei. Ver o seu pequenino corpo se debater enquanto o sangue jorrava das suas gargantas abertas me fez sentir... Sentir... Deus! Estou ficando louco!

Voltei para trás daquela pedra e estou escrevendo. Será que alguém vai sentir falta daquelas duas?

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Sede. Fome. E eu tive coragem de sair daqui? Nada. Meio-dia e eu aqui, escondido feito uma presa, como um animal amedrontado. Lembro-me de ter passado pelo que me pareceu um rio, ouvi ao fundo. Talvez, se voltar um pouco, consiga encontrar água. Preciso ir com cuidado, meus inimigos podem estar me esperando, podem estar lá, de tocaia. Tenho que ser esperto! Vou encher o meu cantil e cair fora! Tomara que consiga.

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Voltando pelo mesmo caminho, me deparei novamente com o corpo das meninas. Eu matei aquelas garotas. Nem quis ficar olhando, passei rápido. Vi que uma raposa estava puxando uma, deveria ser uma mãe querendo alimentar os filhotes, isso é o que se faz, se cuida da família.

Família... Eu tive uma família. Eu tenho uma família. Eu... Não sei mais. Não me lembro direito. Eu tenho alguém me esperando... Acho... Não consigo recordar. O que está acontecendo?

Cheguei ao rio e, com cuidado, enchi o meu cantil. Mais rápido que um raio, voltei para dentro da mata fechada. Não poderia ficar exposto. Não posso dar margem a ataques dos meus inimigos, eles nunca me pegarão com vida.

No caminho de volta, notei que, agora, apenas uma parte de um dos corpos estava lá. Os animais selvagens eram rápidos. Em tempos de guerra, nem eles poderiam se dar ao luxo de recusar alimento.

Percebe o que estou dizendo? Estou dizendo que duas garotinhas que estavam correndo ainda a pouco, que eu matei, eram alimento para animais. Nossa! O que eu me tornei?!

Vim parar novamente na cabana. Ainda está abandonada. Nenhum sinal, parece que eu acabei de sair. Estranho, muito estranho. Pretendo passar a noite aqui. Logo cedo irei sair.

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Faz uns cinco dias que estou aqui na cabana. Nem escrevi esses dias. Eu não sei mais o que fazer, só ando, ando e volto ao mesmo lugar. E o pior, a lembrança dos corpos daquelas meninas não me sai da mente.

Estou com fome. Não tem mais nada para comer aqui. Estou racionando as poucas provisões que me sobraram. Não devem durar mais. Estou, mesmo assim, escrevendo novamente. Vai que preciso me lembrar do que aconteceu. Não me lembro de muita coisa do que fiz antes de vir parar aqui, só o que consegui ler aqui nas minhas anotações. São de demasiada importância. Sinto que enlouqueceria sem ler.

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Já são dez dias tentando sair dessa floresta imunda. Dez dias. Não consigo achar o caminho de volta, não consigo seguir em frente. E o pior é lembrar daquelas duas garotinhas... Como vieram parar aqui? O que estavam fazendo? Quem estava as acompanhando? E o prazer que senti ao mata-las, de ver o sangue jorrar...

Não, eu não sou um monstro. Eu só não queria que meus inimigos soubessem da minha posição. Eu não poderia deixar que me encontrassem. Vou matar todos, um por um. Nenhum deles irá sobreviver. Nenhum. Nenhum deles. Nenhum. Não. Não. Nenhum. Nenhum deles. Vou matar. Vou matar todos. Todos. Um por um. Todos. Tudinho. Todos. Nenhum vai sobreviver.

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Décimo terceiro dia. Estou faminto. Não acho mais nada para comer. E não consigo mais achar o caminho até o rio. Sede. Fome. Estou um caco. Estou morrendo, sinto isso. A minha ferida infeccionou. Está cheirando muito mal. Eu não tenho mais forças. Essas podem ser as minhas últimas palavras, até conseguir escrever está difícil. Preciso manter um registro. Preciso fazer com que conheçam a minha história. Não posso passar despercebido, afinal eu sou... Sou... Porra, esqueci meu nome! Como me chamo? Quem sou eu?

Uma luz cegante, forte, de vez quando, ilumina toda a cabana. Nesse momento, ouço vozes. Devem ser eles. Meus inimigos. Fico sempre imóvel, não posso deixar que percebam que estou aqui. Quero mata-los. Quero destruí-los. Ouço uma música também, como se fosse uma daquelas músicas que tocavam no quartel. Estranho... Lembro da época do quartel, lembro do meu batalhão, mas não lembro, sequer, do meu nome.

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- Senhor? Senhor? Está acordado? Está me ouvindo?
- Onde estou?
- Está em um hospital, senhor. Foi achado com vida após o ataque ao seu batalhão.
- Como é que é? E a cabana? E a floresta?
- Cabana? Floresta? O senhor está aqui há dias, senhor. Estamos cuidando dos seus ferimentos, logo poderá ir.
- Hospital? Como? Quando? Essa música... Lembro dessa música! Tocava na cabana!
- O seu companheiro de quarto adora essa música, senhor. Sempre ouve.
- Então eu estou aqui tem muito tempo... Então eu não matei aquelas meninas! Então eu não sou um monstro!
- Senhor, está bem? Está delirando! Vou chamar o doutor!
- Não, enfermeira. Eu estou bem. Apenas estava perdido dentro de um sonho, só pode. Estou feliz de estar de volta. Agora sei, fui ferido e trazido para cá, meu batalhão foi atacado.
- Sim, senhor. Estamos cuidando de você. O senhor foi achado sem identificação, como se chama?
- Meu... Nome? Meu nome é... É... Não consigo lembrar!
- Tudo bem, senhor. É comum que, após forte trauma, esqueçamos de algumas coisas...

Neste momento, duas pequenas garotinhas adentram ao quarto.
- Mamãe! Mamãe! Chegamos!

Os olhos arregalados e o rosto pálido denunciam o desconforto. Reconhece na hora quem eram: as duas garotinhas da floresta! Ele as matou nos seus sonhos! Mas como? Segurou o travesseiro, como se tentasse agarrar algo para se segurar, para não cair, apesar de estar deitado. Sentiu algo. Eram as suas anotações. Estavam embaixo do travesseiro.

Começou a ler... Todas as anotações estavam lá. Todas. Inclusive sobre as meninas. Mas como? Escrevera enquanto dormia? Gritou. Um grito de pavor. Um grito de angústia. As meninas correram assustadas, como na floresta, como se estivessem sendo perseguidas, como se aquele homem louco fosse as atacar. A enfermeira pulou e o segurou, gritando por ajuda. Na mesma hora, outras enfermeiras vieram em seu auxílio, uma delas com uma seringa. Injetou no soro um poderoso calmante. O homem foi relaxando e parando de gritar. Estava, enfim, dormindo.

Viu uma luz. Uma luz cegante. Estava de volta à cabana. Estava de volta aquele lugar. Mas não estava sozinho, as meninas estavam lá, vivas. Cada uma segurava uma faca. Partiram pra cima dele. Não conseguia gritar, não conseguia se mexer. Sentiu cada golpe, sua pele sendo cortada, o sangue saindo cada vez mais. Dor. Muita dor.

Acordou gritando. Estava de volta ao hospital. Dor. Muita dor. Viu que estava sozinho, viu que apenas as meninas estavam lá, como na cabana. Cada uma segurava uma faca suja de sangue. Observavam e riam. Riam alto, enquanto o homem se contorcia de dor. O seu último suspiro. A última palavra:

- Por quê ?!